Eles eram o tipo de casal que todo mundo admirava. Não pelo drama, mas justamente pela ausência dele. Educados entre si. Organizados. Dividiam as tarefas, os horários, as responsabilidades com uma eficiência que, vista de fora, parecia harmônica.
Mas algo tinha sumido sem que nenhum dos dois conseguisse apontar exatamente quando. Não era amor; isso eles ainda tinham, de alguma forma. Era outra coisa. Mais sutil. Era a conversa de besteira que ninguém mais iniciava. A piada interna que havia perdido o receptor. O momento em que um ia mostrar algo engraçado para o outro e… parava na metade. “Para quê?”
O silêncio havia virado uma parede. Não de um dia para o outro. Tijolo por tijolo.
John Gottman, pesquisador americano que passou décadas estudando casais, tem um nome curioso para os pequenos momentos que constroem — ou destroem — um relacionamento: “bids for connection”, tentativas de conexão, pequenas ofertas de contato que um parceiro faz ao outro ao longo do dia.
Pode ser uma observação banal, como “olha esse pôr do sol”, uma piada, um toque no ombro ao passar. O que Gottman descobriu, e que é ao mesmo tempo simples e perturbador, é que o que importa não é o gesto, mas o que o outro faz com ele.
Quando essas ofertas são ignoradas ou respondidas com indiferença repetidamente, a pessoa para de oferecer. Quando para de oferecer, o outro para de esperar. Quando ninguém mais espera… o silêncio se instala.
Antoine de Saint-Exupéry escreveu que “amar não é olhar um para o outro, mas olhar juntos na mesma direção”. Bonito. Só que, antes de olhar na mesma direção, é preciso ainda querer se virar para o outro quando algo merece ser mostrado.
O casal do começo deste texto não brigava. Funcionava. E é exatamente aí que mora o perigo, porque é muito mais fácil perceber que algo está errado quando há barulho do que quando há apenas uma ausência que foi crescendo devagar, tão devagar que ninguém foi culpado de nada.
A terapia de casal não é um tribunal. Não existe um culpado a ser identificado nem um vencedor a ser coroado. É um espaço para duas pessoas que, em algum momento, escolheram uma à outra e que agora precisam de um lugar para voltar a se ouvir.
A parede não cai de uma vez. Mas começa a rachar na primeira conversa honesta.
Ps: se você se reconheceu nos dois, no que oferece e no que ignora, isso é um bom sinal. Significa que ainda há algo para preservar.
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