O filho que virou o sintoma da família

Adolescente afastado durante um momento de tensão silenciosa entre os familiares.

Ele tinha catorze anos e havia parado de fazer as tarefas.

As notas estavam caindo. O quarto vivia bagunçado. Respondia para a mãe, chegava tarde e passava horas no celular.

Os pais chegaram à primeira sessão com uma conclusão pronta:

“Ele mudou. Precisa de ajuda.”

Algumas sessões depois, outra parte da história começou a aparecer.

O casamento estava silencioso havia dois anos. Não havia brigas. Pior: havia polidez. Aquele tipo de cortesia entre dois adultos que já não se tocam, não se olham e vivem em paralelo dentro da mesma casa.

Os filhos menores brincavam. O mais velho, sensível como muitos adolescentes são quando ninguém percebe, havia notado que algo estava diferente.

E reagiu da forma que conseguia: tornando-se impossível de ignorar.

Salvador Minuchin, psicólogo argentino e um dos fundadores da terapia familiar sistêmica, utilizava o conceito de “paciente identificado” para falar do membro da família que passa a expressar, por meio de um sintoma ou comportamento, algo que envolve o sistema como um todo.

Em outras palavras, às vezes, a pessoa que chega apresentada como o problema pode estar revelando algo que a família inteira ainda não conseguiu nomear.

A família é um sistema.

Quando algo fica desequilibrado em algum ponto, como uma relação conjugal fria, um luto não elaborado ou uma ansiedade sem nome, isso pode afetar a forma como cada integrante reage.

Crianças e adolescentes, por ainda estarem construindo recursos para compreender e expressar o que sentem, podem manifestar no comportamento tensões que circulam dentro da família.

Isso não significa que toda mudança de um adolescente tenha origem familiar, nem que suas escolhas deixem de ter consequências. Significa apenas que olhar para o comportamento isoladamente pode não ser suficiente.

Quando um filho adolescente muda de repente, além de perguntar “o que está acontecendo com ele?”, talvez também seja importante perguntar:

“O que está acontecendo ao redor dele?”

“Como estão as relações dentro desta família?”

“O que ele pode estar tentando expressar e ainda não consegue dizer de outra forma?”

A terapia familiar não retira a responsabilidade do adolescente por suas próprias escolhas.

Ela amplia o mapa.

Coloca o comportamento em contexto e ajuda a família a perceber relações, silêncios e tensões que talvez estivessem passando despercebidos.

E, algumas vezes, descobre que o jovem que parecia ser o único a precisar de ajuda estava expressando algo que dizia respeito a todos.

Com catorze anos, um jeito difícil e uma nota vermelha em matemática.

Ps: adolescentes podem ser observadores muito honestos do que acontece dentro de uma família. Só que, às vezes, expressam o que percebem de uma forma que exige bastante paciência.

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