Ela acordava antes de todo mundo. Fazia isso há anos, sem alarme, como se o corpo soubesse que havia muito a ser feito antes que o mundo acordasse. O café estava pronto quando os filhos desciam. A agenda, organizada. Os e-mails, respondidos. A reunião das 9h, preparada.
“Como você dá conta de tudo?” era a pergunta que ela ouvia com mais frequência. E ela sorria, um sorriso legítimo, diga-se de passagem, porque dava conta, de fato. Funcionava muito bem.
Só que havia uma coisa que ela não sabia nomear. Algo que não estava no calendário e que nenhuma agenda conseguia organizar. Uma espécie de… silêncio. Não o silêncio bom, daquele que se escolhe. O outro tipo. O que acontece quando você para por um momento, no semáforo, em uma fila, no banho, e percebe que não sabe muito bem quem está ali dentro.
Winnicott teria um nome para isso. O psicanalista britânico chamava de “falso self” a armadura relacional que construímos para funcionar no mundo: atender expectativas, proteger o que é mais frágil e verdadeiro em nós. Não é patologia, é adaptação. Inteligente, inclusive. O problema não é ter esse “self” de fachada. É quando ele se torna o único que existe.
Winnicott dizia que o verdadeiro self não é aquele que performamos, mas aquele que simplesmente é: sem plateia, sem agenda, sem avaliação. O que sente antes de pensar. O que quer antes de calcular se pode querer. E há uma pergunta que ele nos deixa, incômoda, mas necessária, que talvez seja a mais importante de todas:
Você sabe quem você é quando não está sendo útil para ninguém?
A mulher do começo deste texto é fictícia. Mas você provavelmente já a reconheceu em alguma amiga, em alguma colega, ou talvez no espelho de uma manhã cansada. Ela não procura terapia porque está “mal”. Ela procura porque algo nela, ainda que em voz muito baixa, suspeita que dá para ser mais do que aquilo que ela mostra.
A psicoterapia individual não é sobre consertar o que está quebrado. É sobre encontrar o que ficou escondido. É criar um espaço, talvez o único, onde a pergunta “como você está de verdade?” não precisa de uma resposta eficiente.
Às vezes, isso é tudo que faltava.
Ps: caso ainda não saiba exatamente quem você é quando não está sendo útil para ninguém… esse é exatamente o tipo de pergunta que a terapia foi feita para receber.
Nem sempre é preciso estar em crise para buscar um espaço de escuta; às vezes, basta perceber que algo dentro de você pede mais presença. Para saber mais sobre a psicoterapia individual,
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