Antes do bebê, eles jantavam tarde.
Conversavam sobre política, viagens, memórias de infância, projetos. Às vezes, ficavam acordados sem motivo nenhum, apenas porque a noite estava boa.
Três anos depois, dormiam às 22h com o celular sobre o peito e chamavam aquilo de “momento do casal”.
Não era culpa de ninguém.
A chegada de um bebê reorganiza tudo: o sono, a agenda, a libido, as prioridades e até o vocabulário. Palavras como “cocô”, “fralda” e “dentição” passam a ter o peso de assuntos urgentes.
O casal, que antes ocupava o centro do projeto, passa a funcionar como infraestrutura. Ainda existe, mas quase sempre em função de outro objetivo.
O problema começa quando uma fase que deveria ser transitória se transforma no modo permanente de viver a relação.
Pesquisas sobre relacionamentos indicam que, em média, a satisfação conjugal pode diminuir depois da chegada dos filhos. Não necessariamente por falta de amor, mas pela redução do tempo, do toque, do descanso e das conversas que não sejam apenas sobre logística.
Aos poucos, o casal pode se transformar em dois cogestores eficientes de uma empresa chamada família.
Conversam sobre horários, consultas, escola e reuniões de pais. Mas talvez já não se perguntem há algum tempo como o outro está de verdade.
Não a versão gerente.
A pessoa.
Esther Perel, terapeuta conhecida por seu trabalho sobre desejo e relacionamentos, chama atenção para a importância do espaço entre duas pessoas: a curiosidade, a novidade e a possibilidade de voltar a enxergar o outro para além das funções cotidianas.
Quando dois adultos passam a viver quase exclusivamente em torno de um projeto comum chamado parentalidade, esse espaço pode diminuir.
E, com ele, o desejo também pode perder força.
A boa notícia é que o casal não precisa escolher entre ser pais e ser parceiros.
Mas precisa decidir, de forma consciente, que a relação também importa.
Dois adultos que se escolheram merecem continuar existindo para além do projeto em comum.
Isso não é egoísmo.
Também é uma forma de cuidado com os filhos: permitir que eles vejam dois adultos que continuam se reconhecendo como pessoas e não apenas como pai e mãe.
Ps: se a última vez que você e seu parceiro conversaram sobre algo que não envolvesse filhos, escola ou contas foi há mais de duas semanas, este texto foi escrito para vocês.
Quando a parentalidade ocupa todo o espaço da relação, talvez seja hora de olhar novamente para o casal que continua existindo ali. Para conhecer mais sobre a terapia de casal, clique aqui.



