Quem pensa na lista do mercado?

Mulher organizando a lista do mercado e outras tarefas da família enquanto o parceiro está ao fundo.

Ela não estava com raiva de nada específico.

Estava com raiva da lista.

Não da lista do mercado em si. Eram apenas dezesseis itens, e ela conseguia escrevê-los em menos de dois minutos. Era o fato de aquela lista existir somente na cabeça dela.

Ela sabia que o azeite estava acabando, que a criança precisava de um caderno novo, que o aniversário da sogra seria na semana seguinte e que a consulta com o pediatra precisava ser marcada.

Ela sabia de tudo isso.

Sempre ela.

Ele ajudava. Esse era justamente o ponto.

Era um bom marido, um pai presente, lavava a louça sem que ela precisasse pedir. Mas, para tantas outras coisas, era ela quem precisava pedir.

Sempre ela.

Existe um conceito que saiu das ciências sociais e chegou às mesas de jantar: a carga mental.

Não se trata apenas do trabalho em si, mas do esforço de pensar, planejar, antecipar e administrar tudo o que precisa ser feito.

É um trabalho invisível e constante que, em muitos casamentos heterossexuais, ainda recai de forma desproporcional sobre as mulheres. Não porque os homens sejam mal-intencionados. A maioria, definitivamente, não é. Mas porque ninguém combinou uma divisão diferente.

E esse é um ponto que a terapia de casal encontra com frequência: não existe necessariamente um vilão, mas existe uma ausência de acordos claros.

Ninguém se sentou para perguntar: quem vai administrar as demandas desta casa? Quem vai lembrar os remédios das crianças, acompanhar os pais que estão envelhecendo, cuidar das amizades que precisam ser cultivadas, perceber o que acabou e lembrar da conta que vence na sexta-feira?

Parecia óbvio. Parecia que tudo se resolveria naturalmente.

Não se resolve.

Acumula.

A boa notícia é que a carga mental pode ser redistribuída. Mas isso exige conversa, visibilidade e, às vezes, um espaço de mediação onde as duas pessoas possam finalmente falar sobre o que está pesando, sem que pareça ataque ou reclamação.

Porque não é reclamação.

É um convite para fazer diferente.

Ps: se você enviou este texto para o seu parceiro, isso também é carga mental. Mas pode ter sido um bom começo.

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