O dia em que o corpo disse basta

Ela estava em uma reunião quando aconteceu. Uma reunião igual a todas as outras: projetor, apresentação, alguém falando sobre metas. Foi então que percebeu que não conseguia respirar direito. O coração acelerou. As mãos suavam. Ela saiu com uma desculpa qualquer e foi ao banheiro.

Não era a primeira vez. Havia semanas em que dormia mal. Meses em que a cabeça latejava nas sextas-feiras. Um ano em que já acordava cansada, como se o sono não tivesse cumprido o prometido.

Mas ela tinha empurrado, porque sempre havia algo mais urgente do que ela mesma.

Aquele dia no banheiro foi quando o corpo cobrou a conta.

Bessel van der Kolk, psiquiatra e pesquisador, escreveu um conhecido livro sobre trauma chamado O Corpo Guarda as Marcas. Ao longo da obra, o autor explora como experiências difíceis podem deixar efeitos não apenas na vida emocional, mas também na forma como o corpo reage.

Isso não significa que toda dor ou sintoma físico tenha origem emocional. Significa que o corpo também participa daquilo que vivemos. Em períodos de sobrecarga, o sofrimento pode aparecer em um ombro constantemente tenso, em alterações no intestino durante épocas de prazo ou em uma fadiga que parece não passar.

Sintomas físicos persistentes ou intensos, no entanto, precisam ser avaliados por um profissional de saúde, pois podem ter diferentes causas.

O burnout nem sempre avisa com uma placa luminosa. Pode aparecer aos poucos. No café que parece ter perdido o gosto. Na música que a gente amava e parou de ouvir. Na sensação de que qualquer coisa a mais será demais.

O problema é que a gente aprendeu que ser produtiva é uma virtude, mas que ter limites é quase uma fraqueza.

Então empurra. E empurra. E empurra.

Até o dia em que o corpo, cansado de ser ignorado, resolve falar mais alto.

A psicoterapia individual não oferece uma solução instantânea para o burnout. Quem prometer isso, desconfie. Mas pode criar um espaço que raramente existe no cotidiano: o de compreender o caminho que levou até ali.

Que parte da exaustão está relacionada às circunstâncias atuais? Que parte pode estar ligada a um padrão antigo de colocar tudo e todos antes de si mesma? O que precisa mudar para que o cuidado não comece apenas quando já não é mais possível continuar?

Porque, às vezes, o banheiro de uma reunião não é o lugar mais adequado para essa descoberta.

Ps: se você está lendo isso e pensando “isso não sou eu, eu aguentaria mais”, esse pensamento, em si, já é um dado interessante para uma primeira sessão.

Compartilhe nas mídias:

Comente o que achou:

Seu bem-estar começa com um primeiro passo

Marque sua sessão e comece um processo de reconexão com você, no seu ritmo e com respeito à sua história.

Últimas Notícias: